Paulo Pereira, Economista e Presidente da Ordem dos Economistas, sublinha a importância de haver um ‘choque fiscal’. O economista André Barreto destaca que muitas empresas poderão deixar de existir terminado o período de confinamento.


É consensual, após falarmos com as Secretarias Regionais da Economia e do Turismo, que o setor do Turismo é aquele que mais está a sofrer com a paralisação da atividade económica, devido à pandemia da Covid-19. “Num ápice, toda a atividade [turística] foi reduzida a zero”, realça o Secretário Regional do Turismo, Eduardo Jesus, salientando as consequências enormes e sem precedentes nas empresas do setor, junto dos colaboradores dessas mesmas organizações e em toda a dinâmica direta e indireta que o setor produz, realçando que o setor corresponde a cerca de 26% do PIB da Região Autónoma da Madeira (RAM).


O Secretário Regional da Economia, Rui Barreto, diz que a paralisação da economia da Região tem um impacto negativo na ordem dos 111 milhões de euros por mês, o que representa cerca de 22% do PIB regional, salientando que o Governo Regional estima um impacto negativo na ordem dos 580 milhões até setembro e mil milhões até ao final do ano. “Isto significa que metade da economia regional está paralisada”, aponta.


Por outro lado, as últimas informações avançadas pela Segurança Social dão conta de que 2.128 empresas já recorreram ao mecanismo de lay-off simplificado, para um total de 33 mil trabalhadores. “Sabemos também que a pandemia tem conduzido a uma diminuição muito significativa do volume de negócios das empresas e o Governo está ciente de que muitas empresas vão reportar uma redução de pessoal, o que levará a um aumento da taxa de desemprego”, refere o Secretário, salientando a criação pelo Governo da Região de uma linha de apoio ao tecido empresarial regional de 100 milhões de euros, cujo principal objetivo é ajudar as empresas a manterem os postos de trabalho. “Trata-se de uma linha com uma taxa de juro totalmente bonificada pelo Governo Regional e com carência de 18 meses”, frisa.


O Presidente da Delegação Regional da Ordem dos Economistas da Madeira, Paulo Pereira, acredita que as consequências deste período ainda não se fazem sentir verdadeiramente na economia como um todo, “pois as empresas e famílias agarram-se a reservas, linhas de crédito, imaginação, esperança e consumo mínimo”, mas que isso em breve terminará com o arrastar da situação e as suas consequências futuras, acrescentando que “os danos do ‘tsunami económico’ serão fortíssimos em toda a atividade regional, mas acima de tudo no principal setor económico que é o Turismo”.
O economista André Barreto também frisa que, apesar de haver setores com capacidade para permanecer a laborar e outros que poderão reinventar-se, as receitas no setor do Turismo são nulas e sublinha que para a economia da Madeira recuperar não bastará reabrir as fronteiras e os hotéis para a atividade retomar normalmente. Realça também que esta situação poderá ter “consequências graves na componente, para nós tão importante, que é o transporte aéreo”, e que muitas empresas poderão deixar de existir terminado o confinamento. Deste modo, realça que a lógica de fundo perdido é a única opção para se conseguir preservar as empresas e, consequentemente, os seus trabalhadores.

Paulo Pereira refere que os privados reagiram a esta situação através dos lay-offs, despedimentos, uso de reservas e recurso a créditos para se aguentarem mais uns tempos, mas que todo esse esforço será em vão se os obrigarem a estar nestas circunstâncias por muito mais tempo. Neste sentido, o economista sublinha a importância de haver um ‘choque fiscal’, quer a nível europeu, quer a nível nacional e regional, realçando que o da RAM é o mais difícil, pelo facto de o Governo Regional estar limitado legalmente, quer na dimensão dos cortes de impostos a fazer, quer na capacidade de endividamento excecional e de longo prazo que financie os défices que irão aparecer até à recuperação.


Além disso, salienta que é preciso ter consciência de que as empresas e as famílias vão demorar muitos mais anos para conseguir pagar as suas responsabilidades bancárias. “Quanto mais cedo os bancos puderem (dependendo do EBA e do BCE) e quiserem dar carências muito mais alargadas e aumentos de prazo a quem sofreu cortes de rendimentos, melhor vai ser para a economia e mais rápida será a sua recuperação”, frisa.


“A lei das insolvências pessoais e empresariais em Portugal é um desastre e perdem credores e deve- dores, ficando apenas a ganhar a parte escura do negócio. Elas podem ser evitadas em larga escala (e assim poupando-nos de ter de salvar bancos novamente) se já se der carência de dois ou três anos e mais dez anos nos Créditos Habitação às famílias que perderam rendimentos, e algo parecido nos créditos às empresas”, afirma Paulo Pereira.

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